quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Arquivo para download: O que é um dispositivo? por Gilles Deleuze

As diferentes linhas de um dispositivo repetem-se em dois grupos: linhas de estratificação ou de sedimentação, linhas de actualização ou de criatividade. A última consequência deste método engloba toda a obra de Foucault. Na maior parte dos seus livros, Foucault determina um arquivo preciso, com procedimentos históricos que são extremamente novos, sobre o grande hospital no século XVII, sobre a clínica no século XVIII, sobre a prisão no século XIX, sobre a subjetividade na Grécia Antiga, no cristianismo. Porque, por obstinado rigor, pela vontade de não misturar tudo, por confiança no leitor, Foucault não formula a outra metade. Formula-a explicitamente apenas nas entrevistas, contemporâneas de cada um dos grandes livros; o que sucede hoje em dia com a loucura, com a prisão, com a sexualidade? Que novos modos de subjectivação surgem hoje em dia, que nem são gregos nem cristãos? Esta última questão, principalmente, ocupa Foucault (nós que já não somos gregos e nem mesmo cristãos...). Se Foucault deu tanta importância às suas entrevistas até o fim da vida, em França e mais ainda no estrangeiro, não foi pelo gosto da entrevista, mas porque as linhas de actualização que traçava exigiam um outro modo de expressão diferente das linhas assimiláveis pelos grandes livros. As entrevistas são diagnósticos. Tal como em Nietzsche, cujas obras dificilmente se lêem sem lhes juntar-mos o Nachlass contemporâneo de cada uma. A obra completa de Foucault, tal como a concebem Defert e Ewald, não pode separa os livros que nos marcaram a todos das entrevistas que nos encaminham para um futuro, para um devir: os estratos e as actualidades. 

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